O Estrategista de Conteúdo já é tratado, em muitos mercados, como um profissional que conecta conteúdo, percepção de marca e objetivo de negócio.
No Brasil, essa leitura ainda está em formação.
A função existe, claro. Há empresas que entendem bem esse papel, remuneram melhor, abrem espaço para pensamento estratégico e usam conteúdo como construção de valor.
Ainda assim, o mercado brasileiro, de forma mais ampla, continua confundindo esse profissional com operação de social media, redação isolada ou calendário de posts.
Esse descompasso ajuda a explicar por que a carreira ainda parece subestimada por aqui.
Lá fora, a função já aparece com outra estatura
Quando olhamos para dados estrangeiros, o cenário mostra um mercado mais acostumado a tratar conteúdo como uma alavanca estratégica.
O Content Marketing Institute mostrou, em seu recorte para 2025, que 46% dos profissionais de marketing B2B esperavam aumento no orçamento de content marketing, enquanto 52% apontavam aumento de investimento em thought leadership e 61% em vídeo.
No mesmo ecossistema, o próprio CMI destacou que uma das prioridades de 2025 é alinhar iniciativas de conteúdo aos objetivos gerais do negócio e educar a liderança sobre o papel estratégico do conteúdo.
Isso diz bastante sobre maturidade.
Quando um mercado discute budget, thought leadership, integração com objetivo de negócio e defesa interna do valor do conteúdo, ele já saiu da conversa mais básica sobre “precisamos postar”.
No campo de carreira e remuneração, a diferença também aparece. A Glassdoor estimou, em março de 2026, salário médio de cerca de US$ 109 mil por ano para o cargo de Content Strategist nos Estados Unidos, com faixa típica entre US$ 83,6 mil e US$ 143,7 mil.
Mais do que o número em si, o dado chama atenção pelo lugar que a função ocupa: ela aparece conectada a indústrias como tecnologia, serviços financeiros e telecomunicações, setores em que conteúdo costuma ser tratado como ativo estratégico.
No Brasil, a função existe, mas ainda sofre com leitura limitada
Por aqui, a percepção ainda parece mais fragmentada.
A própria Glassdoor Brasil mostra o cargo de Estrategista de Conteúdo em empresas como OLIVER Agency e Rock Content, com faixas mensais na casa de R$ 4 mil a R$ 7 mil em algumas listagens, além de registros anuais recentes em São Paulo entre cerca de R$ 56 mil e R$ 70 mil.
O dado não serve como retrato absoluto do mercado inteiro, mas ajuda a perceber duas coisas: a função já está presente e, ao mesmo tempo, ainda aparece em um espaço de remuneração e reconhecimento bastante heterogêneo.
Essa heterogeneidade costuma revelar imaturidade de mercado.
Em parte das empresas, o Estrategista de Conteúdo já é visto como alguém que organiza narrativa, canal, mensagem, recorrência, autoridade e coerência de marca.
Em outra parte, ainda é lido como um profissional híbrido que precisa pensar, escrever, publicar, editar, operar e performar tudo ao mesmo tempo.
O problema não é falta de demanda. É falta de entendimento
O mercado brasileiro de marketing já mostra sinais claros de que precisa de mais direção estratégica.
Segundo os Panoramas RD Station 2025, estudo nacional feito com mais de 3.800 profissionais e bilhões de dados das ferramentas da empresa, ainda existe uma lacuna importante entre esforço e maturidade operacional.
Em artigo publicado no Meio & Mensagem com base nesses dados, aparece um recorte forte: 71% das empresas não bateram suas metas de marketing em 2024 e 58% já utilizam inteligência artificial, mas sem uma estratégia integrada, consistente ou madura.
Esse dado importa muito para esta conversa.
Porque ele sugere um mercado que já adotou ferramentas, canais e volume de execução, mas ainda não consolidou, em muitos casos, a camada estratégica que organiza tudo isso.
E é justamente aí que o Estrategista de Conteúdo ganha relevância.
Por que essa carreira ainda parece subvalorizada no Brasil
Na minha leitura, existem alguns motivos principais.
Primeiro, o conteúdo ainda é tratado por muitas empresas como produção, e não como sistema.
Segundo, várias estruturas de marketing no Brasil ainda concentram muitas funções em poucos profissionais. Isso dilui a percepção de valor de cargos mais estratégicos.
Terceiro, parte do mercado ainda mede conteúdo só pelo post isolado, pela métrica imediata ou pela estética da peça, e não pela construção de percepção, clareza de mensagem e consistência ao longo do tempo.
Quando isso acontece, o estrategista parece “abstrato demais”.
Na verdade, o problema não está na função. Está na régua com que ela é avaliada.
Em síntese
O Estrategista de Conteúdo já é mais valorizado em mercados que entendem conteúdo como ativo de negócio, não apenas como produção de canal.
Fora do Brasil, os sinais de orçamento, thought leadership, remuneração e alinhamento com metas mostram uma função mais consolidada. Aqui, o mercado já começa a reconhecer esse papel, mas ainda convive com leitura difusa, escopos confusos e maturidade desigual.
Na minha opinião, acontece com essa carreira algo parecido com o que acontece com várias profissões do marketing: ela já é reconhecida pelas pessoas certas, mas ainda precisa de bastante aprendizado de mercado.
Qual a sua visão sobre isso?
